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Sunday, March 13, 2011

Para a Paula Cosme Pinto

Antes dos grandes nomes jornalísticos, das grandes entrevistas e do frenesim mediático, esta menina percebeu que num sótão em Alfama nascia um grito de revolta.
Foi ouvir os três pares de mãos que lhe davam forma. Palmilhou meio país à procura de rostos da precariedade.

É graças às mãos dela que milhares de leitores levaram um murro no estômago quando confrontados com a vida dos que vivem na corda bamba. Nas últimas semanas, colocou-se em segundo lugar e mostrou um Portugal que todos gostam de deixar debaixo do tapete. Aquele trabalha sem certezas do amanhã, o que estica o saldo negativo para pagar as contas, o que tem um trabalho e não um emprego.

Tenho a sorte de ter orgulho em todos os meus amigos, mas neste momento o sentimento vai todo para a Paula Cosme Pinto. Sem medos e sozinha deu voz a milhares de pessoas que não a têm. Isto só tem um nome: Jornalismo, com "J" grande.

Por mim... Obrigada!

Foi bonita a festa, pá

Primeiro vieram os que estão cansados das bolsas, dos recibos verdes, do emprego não qualificado. Depois juntaram-se os desempregados, aquele que não tiveram oportunidades na vida e trabalham no que conseguem arranjar. A seguir chegaram os pais e avós que sonharam melhor para os filhos e netos.

Todos têm dificuldade em gerir o dinheiro ao fim do mês. Veem a vida pessoal adiada. Sonharam e têm direito a uma vida melhor. Acreditam no progredir e não no regredir.

Uns manifestaram-se contra este Governo, outros contra todos os que nos lideraram. Querem que o país mude, que avance. Uns são de esquerda, outros de direita.

Ontem, formaram todos uma enorme unidade. Eu vi-os, emocionada, dentro de uma redação cheia de vontade de despir a "farda" de jornalista e ir para a rua gritar.

Thursday, March 10, 2011

Jovens à rasca

Todos os meses se esforçam por sobreviver. Acumulam empregos, não sabem o que é um subsídio de férias, nunca receberam a dobrar no Natal, têm 30 anos e continuam a receber ajuda dos pais.

Andaram na universidade e não se limitaram a quatro anos de estudos superiores. Procuraram formação extra-curricular, não se limitaram às quatro paredes de Portugal e tentam conhecer o mundo de mochila às costas.

Sabem falar de um universo de coisas. Conhecem a situação no Irão, as violações dos Direitos Humanos no Darfur, sabem qual é o perigo de Portugal pagar juros tão altos, distinguem o Quebra-Nozes do Lago dos Cisnes e não se limitam à formatação da cultura imposta pela tv.

Querem mais. Querem ser melhores. Mas vivem à rasca.

À rasca porque os sucessivos governos os deixaram nesta situação. Porque se foi permitindo que o emprego fosse um luxo para toda a vida, mesmo para os que só têm vontade de aparecer depois de almoço. Porque na função pública a promoção é automática, independentemente do que se faça ao fim do dia. Porque permitiram que se abrissem cursos sem o mínimo sentido.

No fundo, porque nos fizeram chegar ao estado em que estamos. Ao Portugal pequenino onde um jovem a recibos verdes que ganhe mil euros leve pouco mais de 500 para casa depois dos descontos. Descontos esses que não lhe dão direito a baixa, a licença de maternidade ou a reforma.

Hão de pagar isso tudo a alguém sim, mas não aos que vivem na corda bamba. Aos que dão o litro sem garantias de que amanhã haverá trabalho.